A primeira dama dos Xutos & Pontapés

bastet

Bastet é a mulher do guitarrista João Cabeleira, dos Xutos & Pontapés. E para nós é a primeira dama da mítica banda portuguesa.

Aqui fica uma entrevista que ela concedeu há uns tempos ao Correio da Manhã:

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– Está há dois anos com o João Cabeleira mas só agora decidiram assumir a relação publicamente. Porquê agora?

– Porque eu não tinha a certeza se o João ia ser o meu homem para a vida, e acho que nós só devemos assumir uma posição ao lado de alguém quando estamos numa relação estável, de que queremos essa pessoa para mais do que um ano ou dois e para construir família. A partir do momento em que vimos que a nossa relação não estava assente em bases de areia, é claro que não vamos fazer uma vida à parte um do outro só para nos andarmos a esconder da Imprensa. Não vou deixar o João em casa e sair sozinha, ou vice-versa.

– E, entretanto, decide escrever um livro para contar a sua história de vida. Como surge a ideia?

– O livro já tinha sido começado ainda antes de conhecer o João, as ideias já cá estavam, só que não tinha a autoconfiança suficiente para dar a conhecer a toda a gente aquilo que tinha sido a minha vida que, a dado ponto, foi incomum. Tive uma infância muito feliz mas depois de sair de casa dos meus pais tive uma vida muitíssimo complicada e diferente da mayoría das pessoas. Tudo isso me levou a querer partilhar a minha história, porque não é fácil viver sozinha com este peso. E, acima de tudo, fazer ver que as pessoas que foram strippers não são bichos, seres inferiores nem pessoas de baixo nível. Toda a vida levei com as pessoas a fazerem-me acreditar que eu era menos, com rótulos que não eram os meus. É horrível sair à rua e ser olhada de lado porque me viram entrar para uma casa de striptease. As pessoas têm um preconceito horrível e comentavam umas com as outras que eu andava na má vida. Quem anda a roubar, a bater e a violar provavelmente anda na má vida. Agora numa casa de streap não se passa nada do outro mundo: as pessoas convivem, bebem, dançam e despem-se.

– Teve uma infância normalíssima. Porque decidiu sair de casa?

– Foi pela ilusão do amor. Tive uma paixão que era reprovada pelos meus pais e, como eu sempre fui dona de uma grande coragem e teimosia, achei que ali residia o amor da minha vida e que me estavam a fechar portas, quando a minha mãe tinha toda a razão. Porque eu apaixonei-me por um rapaz que andava na má vida do tráfico de droga, do roubo… A minha mãe só me queria proteger, porque ver uma filha sair de casa atrás de uma pessoa como aquela era medonho. Ainda por cima, eu era muito pequenina.

– Nessa altura houve um corte de ligações com os seus pais?

– Estive efectivamente uns tempos sem falar com os meus pais, porque estupidamente achava que eles não me queriam ver e já não gostavam de mim, quando eles estavam desejosos por saber se eu estava bem. A ilusão não durou muito e eu tomei consciência daquilo em que me tinha metido logo depois. Era agredida em casa, essa pessoa roubava-me todo o dinheiro, eu aparecia faminta no trabalho, sem roupa para vestir, porque era queimada…

– Nessa fase teve de suportar diversas agressões…

– Sim, não só físicas como verbais e psicológicas, em que eu era inferiorizada. Estava horrível, magríssima, passava muita fome, e toda a minha insegurança começou aí. Eu não tinha bulimia nessa altura mas estava já a entrar num estado nervoso problemático e a caminhar para situações muito complicadas. Além disso, não me identificava com aquele mundo, onde as drogas giravam como pratos de sopa. Sofria horrores, fechava-me no quarto e virara-me para os meus animais, como se fossem uma tábua de salvação. O único carinho que tinha era dos gatos e uma pessoa viver apenas desse tipo de afectos é triste e deprimente.

– Quando é que conseguiu libertar-se dessa situação?

– Cerca de dois anos mais tarde. Sou de ímpetos, e um dia acordei e disse: chega! Estava isolada da minha família, dos meus amigos, já não tinha carinho nem trabalho, por isso não havia muito que me restasse.

– Teve de recomeçar do zero…

– Começo do zero e vou para a rua, que é  o pior sítio onde uma pessoa pode viver.

– Quanto tempo passou na rua?

– Quase dois meses. Em Lisboa, porque não queria estar nos sítios onde eu morei, por ser demasiado próximo da casa dos meus pais e não queria envergonhá-los. O meu maior medo era que passasse alguém conhecido, visse o meu estado, e que a minha mãe ficasse envergonhada com isso. Então resolvi esconder-me debaixo da minha pedrinha para não envergonhar mais ninguém, porque eu é que saí de casa dos meus pais a acreditar no amor para a vida, porque eu é que fui ingénua. A minha mãe sempre me protegeu muito das maldades do mundo. Eu cantava na igreja, era catequista, o meu mando era todo mágico. Para mim, todas as pessoas eram um amor…

– Como conseguiu sobreviver nesses dois meses?

– Nem sei. Sobrevivi como podia: eu pedi, eu dancei para pedir esmola. Cheguei a lutar com um cão para lhe roubar um pedaço de comida, ainda por cima eu que adoro animais. Tinha uma fome desesperada, é animalesco. Mas é a vida, e foi a que eu passei. É preciso ter coragem para enfrentar o mundo como eu o fiz: o mundo nunca sorriu para mim, eu é que sorri para o mundo e achei sempre que o amanhã iria ser melhor.

– O que fez para sair dessa situação?

– Depois achei que dançar era a única coisa que eu sabia fazer. Eu não completei o 12º ano e precisava de pagar uma renda de uma casa, de me vestir, de comer e de pagar água, gás e luz. Não podia sobreviver com 500 euros por mês. Então, fui propor os meus serviços a uma casa de striptease e fui aceite porque tinha uma aparência agradável, que foi o que me salvou. Não sabia dançar no varão mas sim a dança do ventre, que foi o que fiz nos primeiros tempos, enquanto me despia. E foi assim que comecei a ganhar muito dinheiro, dinheiro que eu nunca tinha visto na vida.

– Como foi a primeira vez que fez um striptease?

 

– O primeiro dia foi um pesadelo horrível. Na primeira vez em que fiquei nua na frente de um público imenso, parecia que estava nua na alma também. E lembro-me de que saí a correr na direcção do camarim, até que o dono da casa me espetou uma valente bebedeira, porque estava toda a gente a chamar por mim pois tinham imensa vontade de me conhecer. Queriam oferecer-me garrafas de champanhe, ‘table dance’, e eu a dar um prejuízo desgraçado a chorar no camarim. Depois, foi um processo de adaptação, que podia ter sido desconfortável mas que acabou por ser relativamente fácil.

– Durante quanto tempo trabalhou nessa casa nocturna?

 

– Nós estamos sempre a rodar de casa em casa, também para criar saudades ao cliente. Por isso, trabalhei em Lisboa, nos Açores e até em Las Vegas.

– Sentiu-se bem acolhida no mundo da noite?

 

– Como eu era novinha, fui muito mimada e sentia-me uma princesinha da noite. Mas se há homens muito carinhosos, que só querem mesmo conversar connosco, outros há que querem abusar de nós, o que nos causa um desconforto imenso. Porque eu não estava ali para me deitar com ninguém nem para fazer favores sexuais mas sim companhia e para prestar um serviço erótico. Eu não precisava de dormir com cliente nenhum. Pouco tempo depois de começar a trabalhar à noite, com 20 anos, comprei uma casa com cinco assoalhadas e um quintal. O que eu fazia dava-me para sobreviver à larga. Eu cheguei a ganhar 20 mil euros por mês e se fosse para o estrangeiro voltava com o bolso recheado. O dinheiro dava para tudo e mais alguma coisa.

 

– Bastet era o seu nome de stripper?

– Não, Bastet foi o meu alter-ego, quando decidi sair da rua. O meu nome de stripper era Barbie Cinderela. Isto era tudo um truque mágico: o show começava e o pessoal estava todo à espera que fosse uma princesa a sair lá para fora e saía uma pantera. Cheguei a usar soqueiras e semiluvas com picos para espetar nas costas de umas pessoas. Tinha uma vida dupla: durante o dia trabalhava num cabeleireiro e à noite transformava-me numa coisa absolutamente diferente, numa mulher fatal. Era como se durante o dia fosse um anjo e à noite um demónio

– Como eram os seus shows?

– Vestia-me de cabedal. Comecei a ganhar a minha própria personalidade noctívaga, que não tinha nada a ver com o cor-de-rosa que eu usava durante o dia. No meu show, batia nas pessoas com muita violência, pisava-as com os saltos dos sapatos. Cheguei a meter mordaça nos homens, como se fossem cães, a deitar-lhes cera de velas em cima das costas. Era muito má, e talvez por isso tenha vingado tanto no mundo da noite. Marquei uma geração de streapers pela diferença na forma como desempenhava o meu papel.

– Quando é que começou a ter problemas de bulimia?

– Eu já vinha muito nervosa e ali a concorrência era imensa. Tu tinhas de ser a mais bonita, estar sempre magra, fantástica, sem uma estria nem uma gota de celulite. Era uma pressão gigante, e penso que tudo isso me tenha levado à bulimia.

– E os seus problemas de saúde começaram a aumentar…

 

– A minha saúde ficou muito degradada. Eu sofro de anemia crónica e de cada vez que engravido perco o bebé: sofro de abortos espontâneos porque tenho uma anemia muito, muito grave. Já perdi dois filhos do João e temos sofrido imenso. Sempre vi _o João como um homem forte, grande em tudo, e já o vi a chorar agarrado a mim por toda esta situação. É horrível.

– O João nunca a recriminou por ter feito ‘strip’?

 

– Não, ele ia ver os meus espectáculos, batia palmas para mim, e sempre disse: os outros vêem, eu toco. Diz que às vezes sentia um ciúme miudinho mas que me respeitava. Ele nunca me pediu para eu deixar de ser stripper. Eu não tenho defeitos que encontre no João. Foi a pessoa no Mundo que encontrei com o feitio mais parecido com o meu: somos duas pessoas de paz.

– Porque é que deixou de fazer?

– Eu tive o primeiro aborto espontâneo dentro de um clube de ‘strip’. Depois disso voltei a trabalhar mas a minha saúde não estava muito forte. Tinha o estômago debilitado de tanto beber. Decidi deixar de dançar porque a minha saúde não mo permitia.

– Teve pena?

 

– Sim, porque eu adorava fazer ‘strip’, do fundo do coração. Tive de deixar devido aos meus problemas de saúde, e depois porque uma coisa é teres um namorado, que muda hoje ou amanhã, outra é teres um marido, e aí já não te sentes tão bem. Não é a parte de dançar e de me despir que custa mas o convívio forçado é que já não sabe tão bem quando se tem um marido em casa, e muito menos quando se tem um marido tão conhecido.

– Como conheceu o João?

– Quero reservar isso para os leitores do meu livro.

– Mas já sabia que ele era guitarrista dos Xutos?

– Não fazia ideia. Alguém mo apresentou como sendo uma pessoa que partilhava os mesmos gostos musicais do que eu. E realmente tivemos uma conversa em que falámos de música e em que o convidei para ir ver um show meu.

– O que mais a encantou no João?

– A simplicidade dele. Quando eu conheci o João ele andava muito triste, tinha sofrido muito e sido muito mal amado por uma pessoa que não merecia o anjo que ele é. E eu, primariamente do que tudo, tentei mostrar ao João que ele era uma pessoa muito válida.

– Entretanto, decidiram casar no Meco…

– Sim, em Maio, no dia do meu aniversário. Ele pediu-me em casamento de joelhos, com um anel muito bonito e disse que queria casar comigo a 17 de Maio, porque eu tinha entrado na vida dele como tinha entrado a Primavera. Essas palavras ficaram para sempre na minha cabeça. Foi num cantinho discreto porque o amor não precisa de grandes alaridos.

– E agora vão casar pela igreja…

– Nós queremos casar pela igreja porque achamos que essa é a nossa vontade, a de renovarmos os nossos votos. Nós gostámos tanto do dia do casamento que queríamos casar todos os anos. E mais uma vez queríamos reunir os nossos amigos e família para celebrar o nosso amor.

REFLEXO

– O que é que vê quando se olha ao espelho?

 

– Tendo em conta que tive bulimia e neste momento estou numa fase de tratamento, não vejo sempre o mesmo ao espelho. Há dias em que vejo a imagem daquilo que sou, há dias em que o simples olhar do espelho me causa muita insegurança e outros em que nem sequer olho.

– Tem uma relação conflituosa com o espelho?

– Tenho uma relação de amor/ódio, não propriamente conflituosa. Quando sei que posso olhar, olho e quando sei que não devo, não o faço.

– Quando olha, gosta do que vê?

– Nem sempre gosto daquilo que vejo, porque sou altamente perfeccionista. Então vejo um ‘eu’ sempre incompleto, que precisa de aperfeiçoamento. Tenho no espelho o meu maior crítico.

 

– Alguma vez lhe apeteceu partir o espelho? 

– Já parti, já me cortei com muitos e fiz coisas muito feias com espelhos. Na altura em que estive pior, lembro-me de tapar os espelhos todos de casa, de os partir e depois de os jogar para o caixote do lixo com um sentimento de raiva. Durante alguns anos vivi com a ausência do meu reflexo.

– Actualmente já tem espelhos em casa? 

– Sim, mas estão um bocadinho mais altos do que o nível da cara.

– Quem gostaria de ver reflectido no espelho?

– A mim própria mas em paz com a minha alma.

– Pessoa de referência?

– A minha mãe, o meu pai, o João e o meu filho [filho de João de uma relação anterior], ou seja, a família.

– Momento marcante?

 

– O meu casamento e o dia em que olhei para o meu filho pela primeira vez.

– Qualidade e defeito?

– A minha principal qualidade é ter um grande coração. O defeito é a teimosia.

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